
Publicado originalmente na Revista Parafuso, o artigo de André Pereira, sócio de Indústria da igc Partners, analisa como está a venda de empresas no setor industrial.
Durante a entrevista, foi lembrado o filme Uma Linda Mulher, em que o protagonista é retratado como vilão por tentar comprar uma empresa das mãos de seu fundador. Na prática, o que se observa é diferente: quem construiu um negócio ao longo de décadas quer, acima de tudo, proteger o que conquistou — e a venda pode ser a melhor oportunidade para fazer isso.
Vender uma empresa nem sempre significa aposentadoria. Muitas vezes, é um recomeço, especialmente em um cenário em que tudo muda tão rápido. No setor de fixadores, não basta ter experiência e gerir a empresa como se fazia 30 anos atrás. O corpo pode acompanhar o ritmo; a cabeça, nem sempre.
É aí que entra nosso entrevistado, especialista em M&A — sigla em inglês para Fusões e Aquisições (Mergers and Acquisitions).
Para André Pereira, o empresário do setor de fixadores precisa estar atento e, ao mesmo tempo, confortável para lidar com temas que estão fora do seu dia a dia: entender o real valor do próprio negócio, avaliá-lo e, se fizer sentido, considerar uma venda ou fusão.
A IGC Partners é a maior casa de M&A da América Latina e referência global na indústria. Sou um dos sócios há 20 anos, chefe do setor que definimos como industrials. Temos mais de 200 colaboradores entre a operação São Paulo (Brasil) e Miami (EUA). Nosso trabalho envolve assessorar companhias, principalmente familiares, em movimentos societários que podem ser de venda parcial ou total. O time de industrials, composto por 25 pessoas, está focado, entre outros temas, no setor de fixadores. Neste segmento, temos observado investidores estrangeiros interessados em operar no Brasil, mas não partindo do zero, e sim adquirindo empresas sólidas e em plena atividade, com know-how local, carteira de clientes etc. Onde está meu guarda chuva na igc?
Temos microsegmentações e analisamos o que chamamos de teses — setores ou subsetores que atraem a atenção de compradores e investidores globais. Algumas das teses em que estamos mais ativos no momento são segmentos como embalagens, autopeças, energia, data centers, equipamentos industriais, entre outros temas. Parafusos e afins têm interessante potencial estratégico, pois parafusos são como energia elétrica: sem eles, nada se faz.
Um exemplo interessante que podemos citar é a Multiway (www.multiwayinfra.com.br), fabricante de racks metálicos para data centers, adquirida pela empresa irlandesa Kingspan Data Solutions. A companhia buscava entrar nesse setor e o fez justamente por considerar o mercado de data centers estratégico.
No geral, em uma escala de 0 a 10, eu diria que está em 5. Mas essa média mistura mercados muito diferentes, como parafusos, papel, serviços médicos e racks. Na IGC buscamos setores especiais. Cito como exemplo nossa assessoria na venda da IBG (Indústria Brasileira de Gás), um ativo único por ser a única grande indústria independente desse segmento no Brasil. O interesse por esse setor específico estava em nível 10, tanto que recebemos cinco ofertas excelentes e muito competitivas. Foi uma transação fantástica.
Diante disso, em nossas avaliações internas, o setor de fixadores oscila entre 8 e 9, apresentando um interesse momentaneamente alto. Claro que os desafios macroeconômicos do Brasil pesam, como a taxa de juros elevada e a complexidade da legislação tributária, mas o apetite pelo segmento continua forte.
O primeiro passo é saber o quanto somos sólidos. No segundo, cabe a nós mostrar as garantias legais na coleta e preservação de dados sigilosos da empresa. Nos primeiros três a quatro meses de trabalho dedicamo-nos a entender profundamente a companhia, suas margens, crescimento, exposição e riscos de mercado. Com isso, prepará-la para um processo de M&A, inclusive com investidores de outros continentes, dando as diretrizes para colocá-la em um nível vendável, apta a lidar com empresas de auditoria.
De forma genérica, podemos precificar empresas desse segmento em algo como cinco ou seis vezes o EBITDA. No entanto, estabelecer um padrão é equivocado, pois depende de muitas variáveis. O nível de crescimento da companhia pode levar os preços além da média do setor, assim como o perfil da margem, nível de exportação e outras variáveis que geram valor. O que pode parecer valer cinco pode, na prática, valer quinze.