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M&A volta com novas diretrizes
M&A volta com novas diretrizes
12/3/2025

M&A volta com novas diretrizes

Os critérios para avaliação de distribuidoras químicas para eventuais aquisições ou fusões mudaram. Alterações na direção de grandes companhias internacionais e de fundos de investimentos apontam para uma postura mais conservadora, olhando menos para o tamanho e mais para a rentabilidade de parceiros em estudo. Flávia Silveira, sócia especialista em químicos da ige Partners, especializada em fusões e aquisições (M&A), atuando há 27 anos no sell side (lado do vendedor), avaliou que 2024 foi um ano de ajustes nas companhias locais e globais, levando a reavaliar estratégias e até mesmo renovar a alta administração de alguns grandes players. Com isso, as fusões e aquisições tiveram o ritmo reduzido. “Foram estabelecidas novas diretrizes para os negócios, pois 2023 foi muito difícil para o setor”, explicou.

Flávia identifica uma clara mudança de proposta por parte das distribuidoras, favorecendo a busca por rentabilidade e por crescimento orgânico. “Há empresas, inclusive nacionais, buscando crescimento com recursos próprios no Brasil e fora daqui, em particular no México, mas também na Colômbia e no Chile”, apontou. “O Brasil não deixou de ser interessante, mas outros países ganharam relevância.” Apesar disso, ela informou que houve operações de M&A em 2024, porém voltadas para nichos de portfólio, quase sempre com empresas de menor porte. “Os potenciais compradores buscam nichos que tenham sinergia com seu portfólio, querem empresas ‘redondinhas’, nas quais não precisem fazer muitos ajustes”, salientou.

Tendo visitado várias feiras internacionais de negócios e realizado mais de 50 interações com potenciais compradores em 2024, Flávia percebe uma nítida preferência por distribuidoras locais que tenham posição relevante em especialidades com foco em alimentos e farmacêuticos, bem como em aditivos para tintas e insumos para tratamento de águas. “A procura deixou de ser por tamanho e volume comercializado para seguir a trilha da especialização, nichos de mercado e foco definido”, ressaltou. Os fundos de investimento, ao concentrar ou diluir participações, tornam os negócios mais dinâmicos. “Lá fora isso é mais fácil, o Brasil possui muitas regulações que dificultam movimentos interessantes, por exemplo, cindir uma empresa para que se possa vender apenas uma parte dela é algo que demora muito por aqui. E a demora é uma grande inimiga de M&A”, explicou. Nos países mais desenvolvidos, como afirmou, as empresas já são auditadas e preparadas para esses movimentos, as BUs (unidades de negócios) são separadas, salientou.

Ao mesmo tempo, Flávia comentou que as due diligences (auditorias para M&A) são cada vez mais rigorosas, exigindo uma preparação muito bem-feita. “Os investidores não querem receber passivos ambientais, trabalhistas e tributários”, alertou. Aliás, desde o anúncio público do fundo de investimentos BlackRock, o maior do mundo, de que os seus investimentos voltariam a ser avaliados pelos seus resultados financeiros mais do que pelo atendimento aos critérios de ESG, o mercado todo se alinhou no mesmo sentido. “A questão da sustentabilidade perdeu um pouco de força, os indicadores operacionais voltaram para o centro das atenções”, atestou a especialista. “O ESG continua a ser desejável, traz resultados interessantes, mas deixou de ser obrigatório; quem o adotou, vai manter.”

Um ponto a ser verificado com atenção, principalmente no caso das especialidades químicas, é o preço dado pelos fornecedores com contratos de chamadas bandeiras dos distribuidores. “É importante que essa não seja uma determinante bandeira, pode ser muito atraente para um distribuidor global que também conte com essa parceria”, afirmou. Ela comentou que algumas distribuidoras valorizam menos as bandeiras, optando por vender produtos com marcas próprias, assumindo a garantia da qualidade e os serviços ao cliente.

A persistência de um cenário com alta disponibilidade de produtos e preços baixos estimula a concorrência e aperta as margens de lucro, exigindo dos distribuidores algumas mudanças. “O cenário favorece a ampliação da carteira de clientes e de produtos dos distribuidores, mas é preciso ter foco no básico, fazer bem as atividades elementares do negócio”, recomendou Flávia. Uma sugestão é “oxigenar a carteira de clientes e ativos”, além de olhar os indicadores de desempenho mais relevantes (KPI) com muita atenção, buscando o melhor retorno por tonelada vendida. “Os lucros não são os mesmos de antes, mas continuam saudáveis, gerando fluxo de caixa robusto, capaz de atrair investidores”, salientou.

A situação macroeconômica do Brasil não é lá muito animadora, mas isso não impede a ocorrência de negócios. “Os investidores estrangeiros acompanham de perto a nossa economia, conhecem bem a situação e suas implicações”, disse. “Eles têm menos medo disso do que os próprios brasileiros.” Flávia salientou que os investidores globais olham para um horizonte de 20 anos, tornando a avaliação do presente menos impactante. “Eles querem estar aqui, muitas vezes um grande cliente, um key account, exige a presença do distribuidor global no Brasil, é uma decisão estratégica”, explicou. Mesmo assim, ela recorda que crises econômicas podem retardar planos por alguns anos.

“A crise de 2016 parou o setor de M&A até 2018”, apontou. Embora 2024 tenha sido morno, várias conversações foram iniciadas no último trimestre e devem ter desdobramentos em 2025. “Estamos esperando um ano movimentado, porém sem euforia, com as atenções voltadas para empresas menores”, finalizou Flávia Silveira.

Fonte: Revista Química e Derivados