A IA não elimina os serviços de TI. Ela redefine quem é valioso em um M&A

Tempo de leitura
8 minutos
Data
Aug 20, 2026
Autor
Rafael Frugis — Sócio, IT & Professional Services, igc Partners
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A inteligência artificial passou a ocupar o centro das discussões estratégicas no setor de tecnologia. Para algumas empresas, ela representa uma oportunidade de aumentar produtividade, ampliar margens e desenvolver novas ofertas. Para outras, pode reduzir barreiras de entrada, diminuir a necessidade da oferta e colocar pressão sobre modelos de negócios que antes pareciam protegidos.

Por isso, a pergunta sobre a inteligência artificial ser um risco ou uma oportunidade para as empresas de tecnologia não tem uma resposta única. O impacto dependerá do tipo de serviço oferecido, da complexidade das entregas, da relação construída com os clientes e, principalmente, da capacidade de transformar a tecnologia em resultados concretos, mas uma coisa é fato: todas as empresas devem se aprofundar no tema e usar a Inteligência Artificial a seu favor.

Quem vende apenas uma ferramenta, um software ou uma capacidade facilmente replicável pode ver seu modelo de negócios pressionado. Quem combina profundidade técnica, conhecimento do negócio, proximidade com o cliente e capacidade real de implementação pode sair ainda mais forte desse movimento.

Essa diferença já começa a aparecer na forma como compradores e investidores analisam empresas do setor.

Por que o impacto da IA não é igual para todos

Em empresas de software e produtos de tecnologia, a inteligência artificial pode reduzir significativamente o tempo e o custo de desenvolvimento de novas soluções. Funcionalidades que antes exigiam equipes numerosas e longos ciclos de construção podem ser desenvolvidas com mais velocidade.

Isso tende a diminuir algumas barreiras de entrada e permitir o surgimento de novos concorrentes. Também pode tornar mais difícil sustentar preços elevados quando uma parte relevante da solução pode ser reproduzida ou incorporada a plataformas maiores.

Não significa que todas as empresas de software perderão valor. Companhias com dados proprietários, distribuição relevante, forte integração com os processos dos clientes e produtos críticos para a operação continuarão ocupando posições estratégicas. No entanto, produtos pouco diferenciados ou baseados apenas em funcionalidades podem enfrentar uma competição mais intensa.

No segmento de serviços de tecnologia, a análise é diferente.

A tecnologia utilizada na execução é apenas uma parte da proposta de valor. Em muitos projetos, o que realmente diferencia uma empresa é sua capacidade de compreender o problema do cliente, desenhar a solução adequada, integrá-la aos sistemas existentes e conduzir a transformação dentro da operação.

Esses elementos são mais difíceis de replicar do que uma ferramenta isolada. Eles dependem de confiança, histórico de execução, equipes qualificadas e conhecimento acumulado sobre os processos críticos de cada indústria.

O risco da padronização

Isso não significa que todas as empresas de serviços estarão protegidas da disrupção provocada pela inteligência artificial.

Serviços muito padronizados, repetitivos e dependentes exclusivamente da alocação de profissionais tendem a sentir maior pressão. Se a inteligência artificial permite executar uma atividade em menos tempo ou com uma equipe menor, o cliente naturalmente passa a questionar modelos de contratação baseados apenas em quantidade de horas.

Uma forma de entender essa transformação é separar inteligência de julgamento. Boa parte do trabalho de programação pode ser descrita como inteligência: envolve regras que podem ser extremamente complexas, mas que continuam sendo regras e, justamente por isso, podem ser aprendidas, aceleradas e, em alguns casos, replicadas pela inteligência artificial.

O trabalho das empresas de IT Services, no entanto, não se limita a essa camada. Nas atividades de maior valor agregado, ele combina inteligência com julgamento: a capacidade de tomar decisões em situações nas quais não existe uma resposta objetiva, avaliar trade-offs, interpretar diferentes variáveis e definir o melhor caminho a partir do contexto específico de cada cliente.

Esse julgamento não é facilmente codificável. Ele é construído ao longo de anos de prática, da experiência acumulada em diferentes projetos e, principalmente, de um conhecimento profundo sobre o negócio, os processos e as prioridades do cliente.

É por isso que serviços que envolvem decisões complexas, integração entre diferentes sistemas, conhecimento setorial e responsabilidade sobre resultados tendem a ser mais defensáveis. A inteligência artificial pode acelerar a execução e ampliar a capacidade técnica das equipes, mas ainda é necessário decidir qual problema deve ser resolvido, quais riscos devem ser considerados e como a tecnologia deve ser aplicada para gerar impacto real no negócio.

Por outro lado, quando uma empresa vende essencialmente esforço, executa atividades facilmente replicáveis e não possui uma especialização clara, o risco de padronização aumenta. A eficiência proporcionada pela tecnologia pode ser absorvida pelo cliente, enquanto o fornecedor enfrenta maior pressão sobre preços e margens.

A inteligência artificial, portanto, não elimina o trabalho das empresas de IT Services. Ela muda onde está o valor desse trabalho: menos na execução de tarefas que podem ser transformadas em regras e mais na capacidade de aplicar conhecimento, contexto e julgamento para resolver problemas complexos.

Da venda de capacidade à entrega de resultado

Nesse novo modelo, a divisão do trabalho também muda. As empresas vencedoras serão aquelas que discutem estratégia com o cliente, entendendo o problema de negócio, as prioridades e os riscos envolvidos, e utilizam a inteligência artificial para acelerar e escalar a execução. A conversa estratégica continua sendo humana; a entrega ganha velocidade e precisão com a tecnologia.

Em vez de utilizar a tecnologia apenas para reduzir custos, essas companhias podem aplicá-la para analisar mais informações, antecipar problemas, acelerar decisões e oferecer soluções mais completas. A eficiência deixa de ser apenas uma vantagem interna e passa a fazer parte do valor entregue ao cliente.

Essa transformação também exige uma mudança comercial.

Modelos baseados exclusivamente em horas trabalhadas tendem a perder relevância diante de propostas vinculadas a eficiência, produtividade, automação e impacto sobre o negócio. Quanto mais claramente a empresa consegue demonstrar o resultado produzido, menor tende a ser a comparação direta por preço.

Nesse contexto, a inteligência artificial deixa de ser uma concorrente e passa a funcionar como uma alavanca. Ela aumenta a capacidade da equipe, amplia o número de problemas que podem ser resolvidos e permite que profissionais se concentrem em atividades de maior complexidade.

Os vencedores provavelmente não serão aqueles que tentarem competir contra a tecnologia, mas aqueles que conseguirem utilizá-la melhor em favor do cliente.

O caso BITKA e BIP

A aquisição da BITKA Analytics pela BIP, em que a igc atuou como assessora exclusiva da BITKA, ilustra bem esse movimento.

Fundada em 2020, a BITKA reunia mais de 140 especialistas em dados e desenvolvia soluções que combinavam inteligência artificial, otimização, engenharia de software e machine learning. A companhia também havia construído forte especialização no setor de mineração, aplicando modelagem preditiva, prescritiva e inteligência artificial generativa a problemas complexos de grandes empresas.

A relevância estratégica do ativo não estava apenas na utilização de inteligência artificial. Estava na combinação entre tecnologia, talento especializado, conhecimento setorial e capacidade de aplicação prática.

Para a BIP, uma consultoria global de gestão e transformação digital, a transação ampliou sua rede internacional de especialistas, fortaleceu sua atuação ponta a ponta e acelerou sua expansão na América Latina, especialmente em um setor estratégico como mineração. O comprador destacou justamente o talento, a expertise técnica e a experiência setorial da BITKA como fatores centrais da aquisição.

O caso mostra que a inteligência artificial não reduz necessariamente o valor das empresas de serviços. Quando inserida em uma proposta de valor diferenciada, ela pode aumentar a atratividade do ativo.

O comprador não está adquirindo apenas uma tecnologia. Está incorporando uma equipe capaz de utilizá-la, um histórico de projetos, uma posição em determinada indústria e relacionamentos que levariam anos para serem construídos organicamente.

O que passa a valer mais em uma transação

Do ponto de vista de M&A, compradores e investidores tendem a observar com mais atenção a qualidade das capacidades que estão por trás do crescimento.

Uma empresa pode adotar inteligência artificial rapidamente. Construir equipes qualificadas, conhecimento setorial e credibilidade para atuar em processos críticos exige muito mais tempo.

Por isso, empresas que combinam profundidade técnica, relacionamento próximo com os clientes, capacidade de integração e histórico comprovado de execução tendem a ocupar uma posição mais defensável.

Também ganha importância a capacidade de transformar conhecimento em uma metodologia replicável. Quanto menos o serviço depender de iniciativas isoladas e quanto mais a empresa conseguir estruturar processos, ferramentas e modelos próprios, maior tende a ser sua capacidade de crescer sem perder qualidade.

A especialização por indústria é outro elemento relevante. Conhecer profundamente setores como serviços financeiros, saúde, varejo, mineração ou agronegócio permite que a empresa compreenda não apenas a tecnologia, mas também os riscos, os processos e as decisões que determinam o resultado do cliente.

Esse conhecimento reduz o tempo de implementação e torna a relação comercial mais estratégica. Em vez de ser apenas um fornecedor de tecnologia, a empresa passa a ocupar o papel de parceira de transformação.

Compradores mais seletivos

A inteligência artificial também deve aumentar a distância entre empresas diferenciadas e negócios pouco protegidos.

Compradores continuarão interessados no setor, mas devem ser cada vez mais criteriosos. Crescimento de receita, isoladamente, pode não ser suficiente. Será necessário entender quanto desse crescimento está associado a serviços que podem ser automatizados, qual é a relevância da empresa para seus clientes e como a companhia pretende proteger sua posição nos próximos anos.

Empresas que demonstrarem uma estratégia clara para inteligência artificial, acompanhada de casos concretos de aplicação e impacto, terão uma narrativa mais consistente. Já aquelas que utilizarem o tema apenas como discurso podem enfrentar questionamentos durante a diligência.

O mercado tende a premiar ativos que utilizam tecnologia para ampliar resultado, e não apenas para reproduzir serviços existentes com menor custo.

Mesmo em um ambiente de maior seletividade, companhias diferenciadas continuam capazes de atrair compradores estratégicos e valuations que reconhecem sua posição. A tecnologia pode mudar as ferramentas utilizadas, mas não elimina a importância de conhecimento, confiança e capacidade de execução.

Uma mudança de modelo, não o fim do setor

A inteligência artificial não deve ser tratada apenas como uma ameaça a ser evitada. Para empresas de serviços de tecnologia, ela representa uma oportunidade de rever o modelo de negócio, elevar a produtividade e construir ofertas mais relevantes.

A pergunta central não é se a inteligência artificial substituirá determinados serviços. É se a empresa conseguirá utilizá-la para entregar mais valor do que seus concorrentes.

As companhias que continuarem vendendo apenas capacidade podem enfrentar pressão. As que conseguirem combinar eficiência, automação, inteligência aplicada, estratégia e profundo conhecimento do cliente poderão fortalecer sua posição.

No próximo ciclo de consolidação, essa diferença será determinante. Compradores não buscarão apenas empresas que utilizam inteligência artificial. Buscarão organizações capazes de transformar essa tecnologia em resultados reais, recorrentes e difíceis de replicar.

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